O conjunto de desenhos que Teresa Lobo expõe no Museu de Arte Contemporânea do Funchal devolve uma relação expandida e hiper-sensível com o entorno, com as coisas no mundo. Essa relação é feita de intensidades e de interioridades, por isso, neles, as coisas – sensações, sons, imagens, pensamentos, vertigens, desejos, miragens, objectos – são processadas e vertidas como se não tivessem forma, como se fossem informes, como emanação de energia.

As coisas têm um tempo mas têm também um lugar. Estes desenhos pertencem, provêm da Ilha da Madeira, onde agora são expostos. Um dia Manuel Zimbro mostrou-me um mapa da Ilha da Madeira que é um dos mapas mais bonitos que já vi e também um dos mais simples. Nele, surge uma mancha amarela (uma pequena porção de terra) rodeada de uma enorme, quase desproporcional superfície azul (uma extensa quantidade de mar). A Ilha da Madeira tem essa escala em forma de representação e é, simultaneamente, quando a transportamos connosco (sim, uma ilha não se habita, carrega-se, leva-se uma vida inteira), uma enorme caixa de ressonância, uma máquina de emaranhar paisagens, uma vertigem permanente, um lugar arcaico e profundo, intenso e excessivo.

Estes desenhos transportam e representam este lugar atmosférico, são a materialização desse jogo de escalas e de afectos, de posse e de perda, são corpo e ar ao mesmo tempo, entramos neles como num mapa, abstracto e concreto. Projecção, vertigem e queda, por esta ordem.

 

Maio de 2015

Texto do Catálogo da exposição Parte de mim, Museu de Arte Contemporânea do Funchal, Fortaleza de S. Tiago, 2015