DA RAIZ AO NÚCLEO
Madeira
From March 10th to july 31st

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Opening of the exhibition DA RAIZ AO NÚCLEO, march 2022

O desenho como nudez
DA RAIZ AO NÚCLEO, Teresa Gonçalves Lobo

Não saber como dizer a mão que desenha, o corpo que despe e se deixa despir, fazendo-se habitar da alegria e nunca do temor dessa inevitável e natural nudez. Não saber como encontrar o verbo capaz de dizer o traço que nasce do lugar mais subterrâneo do corpo, do silêncio e do divino. Do calor do sangue que pulsa, mesmo se já arrefecido. Eis o corpo inteiro de Teresa Gonçalves Lobo. Como dizê-lo? Etéreo e telúrico, ancestral. Profundo e sagrado. Entregue. Um corpo pronto para o encontro, para o perpétuo embate do espanto; a mão levíssima e arqueológica que rasga as dimensões temporais e espaciais até se aprofundar na origem. Da raiz ao núcleo, do núcleo à raiz. Riscar até subtrair tudo o que é supérfluo e, então, entrar, uma e outra vez, sempre de novo, pela veia mais funda e primitiva. A grande beleza do desejo pela sua fatalidade.

Quem mais poderia ressuscitar a árvore da cinza e devolvê-la à altitude? Quem, senão Teresa Gonçalves Lobo, transmutaria, assim, o vapor dos galhos num destino de transcendência? Quem mais poderia ser a mãe, a mão, a árvore, o animal, a boca, a poalha e a carne crua, ou o inelutável desabamento do corpo sobre a folha que adivinha o renascer e o remorrer da linha? Uma única linha, uma única mão, frágil, porém concisa e ininterrupta.

Eis aqui o traço que pousa contra a pedra, a ternura uterina da qual não temos memória até que a morte nos leve para dentro. A linha cumprese na lisura da sua nudez, na infinita (im)possibilidade e na reinvenção de uma completude que pertence a outra ordem do tempo-pensamento e da matéria. Eis aqui a linha-corpo que guarda o cheiro da pele queimada das árvores e o ardor de todo o princípio. DA RAIZ AO NÚCLEO coloca-nos diante da aparição do corpo inteiro da artista, convocando-nos para um território de rendição e de intimidade, que é, afinal, também o nosso, e se constrói a partir da intersecção dos corpos, como ato eminentemente amoroso e inaugural. O milagre de ver e sentir o que não nasceu ainda.

Susana de Figueiredo

O que me diz a pintura de Teresa Gonçalves Lobo

“A Essência da arte é a Poesia.” Uso esta frase de Heidegger [1] para explicar sucintamente o que me diz a pintura de Teresa Gonçalves Lobo. Bem entendido que sabemos todos que a palavra ‘arte’ é olhada quase sempre e só para as artes plásticas e também para as artes ditas performativas, bem como para qualquer expressão de competência técnica, a que se junta mais qualquer outra coisa…

Mas a poesia é igualmente, em todas as acepções, arte, com a particularidade de mais directamente associarmos o significado e o sentido à ‘poesia’, não eliminando de todo a questão do sentido e do significado na palavra ‘arte’. Quer uma quer outra palavras têm em comum a ideia de ‘fazer’… Uma, a ‘arte’, a ideia de ‘fazer’ mais associada à mão (sentido ainda presente, por exemplo, no vocábulo artesanato); outra, a ‘poesia’ (nos nossos dias) [2], a ideia de ‘fazer’ mais associada ao espírito e ao pensamento.

Ambas têm igualmente em comum aquilo a que ainda hoje se diz ser (ou poder ser) a inspiração, ou seja, a sede de qualquer coisa que é genesíaca, mas anterior à criação. Embora a arte tenha tido sempre e continue a ter indiscutivelmente importância, desvalorizamo-la às vezes e em algumas situações porque dela, enganadoramente, arredamos o espírito e a limitamos muitas vezes ao prazer da visão e tão somente à estética e aos sentidos, como se a semântica comunicante do artefacto não impregnasse por inteiro aquilo que se vê… Não por acaso, Heraclito, o filósofo grego dos sécs. VI/V a. C., dizia que ‘os olhos e os ouvidos são más testemunhas, quando a alma não presta’; mas acrescentava, todavia, que ‘os olhos são testemunhas mais fiáveis do que os ouvidos’ [3]

Houve um momento na história da nossa civilização em que passámos a associar o sentido e o significado mais à palavra e à escrita do que à imagem e à arte. Mas é claro que a prevalência do olhar nas nossas vidas não deixa dúvidas, explicando de resto a prevalência biológica da imagem, como agora também se vê pela primazia das nossas tecnologias de écran, por exemplo… Essa prevalência é exigida pela nossa biologia. É por aqui que se pode dizer que o evangelista se enganou quando disse que no princípio era o Logos [4], o pensamento e a palavra. De facto, de todos os pontos de vista, no princípio era a imagem. Devemos quase tudo ao nosso imaginário na história do desenvolvimento do nosso cérebro. Até a ciência lhe devemos. É por aqui que verdadeiramente nos distinguimos dos restantes seres vivos. Dependemos do nosso imaginário [5]. Até politicamente…

Tudo isto que afirmo é pano para muitas mangas. Mas a mim, aqui e agora, interessa-me apenas dizer que a prevalência elemental da imago/imagem associada à arte continua sacramental… Porque a arte toca, representa e expõe a força do que interessa, a força do ser…, a força e a substantividade do que é intocável e, no fundo, como sabem, o sagrado é por natureza aquilo que é intocável e intangível [6].

A essência da arte é a poesia. Mas a essência da poesia é a instauração da verdade, acrescentava Heidegger. E ainda explicava em que sentido falava em instauração da verdade: instaura porque oferece; instaura porque funda, instaura porque começa, dizia o filósofo [7].

A arte de Teresa Gonçalves Lobo, no meu modesto entender, faz tudo isto: decifra e revela; toca nos elementos e deles exaure a força da sua simplicitas; traz-nos de volta à terra e da sólida e criativa interligação dos elementos na terra expõe, pelo traço dos desenhos, pelo carvão, a ‘gravitas’ (a força, o peso), a frágil solidez, o ser das coisas simples, donde provimos e às quais voltaremos. Tudo isto comunica uma força que resulta do traço, mas também da cor. Comunica pelo simples facto de a artista aceder às formas primeiras pelo trabalho de ver claro na multiplicidade. Mas o pórtico da sua arte é o da Unidade, que pressinto se revela simples mesmo nas coisas grandes que nos afectam muitíssimo, como a morte, por exemplo, sem a qual não existe vida. “A Existência, disse Sant’ Anna Dionísio [8], é uma realidade una com um plural dentro”. É neste plural dentro que a simbólica da artista se concebe, pelos traços da sua mão.

Desde que os observei pela primeira vez (aos trabalhos da Teresa Gonçalves Lobo) que essa visão me toca profundamente e me deixa parado como que frente a um altar, pois ali sinto, nos seus trabalhos, uma inteireza, uma completude, uma unidade de que nos afastámos, também por efeito da multiplicidade das artes adstritas unicamente à estética, como costumo dizer. Sinto em muitos dos seus trabalhos, apesar das linhas que evocam movimentos, a fixação não ainda assim no devir, mas no que permanece; um pouco o que Parménides fez quando lembrou que o ser das coisas permanece (como o fundo dos rios, recordando aqui o que Heraclito dissera quanto a não nos podermos banhar duas vezes na mesma água do mesmo rio)… E, de facto, há uma impermanência elemental na distração genérica em que vivemos, em desconcentração do que interessa. Por isso esta arte nos surpreende.

Estes quadros interpelam-me então também porque retomam a seu modo a força da natureza que prevalece.

Cioram [9], que gostava de analisar o mundo por aforismas, dizia que os pensadores em primeira mão meditam sobre as coisas e que os outros meditam acerca dos problemas. Na sequência desta afirmação, lembrava que “é preciso viver diante do ser, e não diante do espírito.” Se houvesse só espírito, o mundo seria talvez de uma insofrível monotonia, como também disse o citado Sant’ Anna Dionísio [10].

É talvez por isto e deste modo que eu sinto, mesmo quando a carvão, uma ‘claridade radiosa’ (para usar uma expressão de Sophia) em todos estes trabalhos, que vão de facto ‘da Raiz ao Núcleo’. A raiz, como todos nós sabemos, cresce em sentido contrário ao caule; a raiz aprofunda, fundamenta, e dá origem… O núcleo é o âmago e a essência, ali onde se movem os elementos básicos da matéria; o núcleo é a sede do que existe…

Eu suponho que seja isto que ilumina por dentro todos estes trabalhos, que comunicam naturalmente um pensamento, indicam uma atitude e convocam, por igual, comedidamente, um prazer estético, que corrobora a ideia, o pensamento e a palavra. Considero-os desafiadores da complexitas do mundo em que hoje habitamos. Teresa Gonçalves Lobo recupera e retoma, quanto a mim, uma certa relação com a natureza, que lembra também o sentido primeiro da palavra mundus, que significa (no latim) puro, limpo, inteiro, por oposição a imundus, donde provém o nosso adjectivo ‘imundo’…, e cujo significado toda a gente conhece.

Por isso me comovem estes trabalhos, tão singelamente elaborados (ao que parece), mas que não abdicam da genuinidade da natureza onde se inspiram e sobretudo da sua verdade intrínseca e despojada. Dir-se-ia que além disso veiculam a honestidade que a cada dia encontramos no pão fresco como nas ervas do campo.

A arte, em certo sentido (quando não se deixa capturar apenas pela estética), quando é mesmo arte e grande, é sempre sacra… É sempre muito mais do que estética e belas artes. É sempre também logos e, portanto, é sempre pensamento e palavra. E poesia.

Foi tudo isto à mistura que reavivei quando, na passada segunda feira, aqui chegado pela manhã, já com a exposição que ireis conhecer devidamente montada, senti uma formidável alegria, o que até, num impulso não muito frequente em mim, me fez enviar uma mensagem à artista, dizendo. “A Assembleia está belíssima, cara Teresa; eu diria mesmo TRANSFIGURADA”, acrescentei, pois tudo me fazia lembrar um campo onde as coisas crescem.

E assim é de todas as formas, posto que a Assembleia é o coração da nossa autonomia.

Eis porque, senhor Presidente da Assembleia e Senhores Deputados, considero este um momento especial da vida parlamentar. Aqui melhoramos na medida do possível o presente e preparámos o futuro. E isto pode e deve ser feito também com a Força (simbólica e verídica) destes trabalhos.

Muito Obrigado pela V. Atenção.

Funchal e ALRAM, 10 de Março de 2022

Marcelino de Castro

Nota: o autor preferiu usar a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

                                                        

[1] A Origem da Obra de Arte, trad. port. de Maria da Conceição Costa, Lisboa, Edições 70, 2018, p. 62.
[2] No grego antigo, “ποιείν” (“poiein”), verbo a que se liga “ποίησις” (“poiesis”, donde vem poesia), significava também fabricar, fazer, produzir, executar, mas igualmente confeccionar, criar, compor (um poema), agir…
[3] Fragmentos DK, 107 (em tradução livre) e 101a (citação deste último adaptada de Pinharanda Gomes, Filosofia Grega Pré-Socrática, Guimarães Editores, 1980 [2], p. 151.
[4] No grego antigo, “Λόγος“ / “λόγος” (“Logos”/”logos”), ou seja, palavra e pensamento (em simultâneo).
[5] Meu artigo “Imaginário”, in Tribuna da Madeira, 28/09/2015, p. 13.
[6] No latim, “sacer”, donde provém a palavra ‘sagrado’, significa “intocável”…
[7] Op. cit., p. 62.
[8] In Rio de Heraclito (Solilóquios), [Porto], Seara Nova, p. 15.
[9] Do Inconveniente de Ter Nascido, trad. port. de Manuel de Freitas, Lisboa, Letra Livre, 2010, p. 41.
[10] Op. cit., p. 10.